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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A GUERRA DOS CRISTEROS - PARTE 3 - A PERSEGUIÇÃO DE CALLES


O Estopim da Guerra Cristera
Fonte: ECWiki Tradução: Morro por Cristo

Depois da presidência de Juárez (1855-72), o México foi quase sempre governado, conforme vimos, por generais: general Porfirio Díaz (1877-1910), general Huerta (13-14), general Carranza (16-20), general Obregón (20-24). Agora, de maneira ainda mais brutal, será governado pelo general Plutarco Elías Calles (1924-29). Plutarco Elías Calles Reformando o Código Penal, a "Lei Calles" de 1926, determina a expulsão dos sacerdotes extrangeiros, sanciona com multas e prisões a quem ministrar ensino religioso ou estabelecer escolas primárias, a quem se vestir como clérigo ou religioso, a quem novamente se reunir após haver sido exclaustrado (retirado do clautro / mosteiro), àqueles que induzirem à vida religiosa, aos que realizarem atos de culto fora dos templos... 

Repetindo o truque dos tempos de Juárez, também agora uma Secretaria do governo callista empreende a ridícula tentativa de criar uma Igreja cismática mexicana, desta vez em torno de um precário Patriarca Pérez, este último tendo finalmente morrido em comunhão com a Igreja. Os governadores dos diversos Estados rivalizavam entre sí, como que para ver quem seria mais implacável na aplicação da lei, assim o de Tabasco -general Garrido Canabal- um déspota corporativista, além de mulherengo, ao estilo mussoliniano passou a exigir aos sacerdotes que se casassem, se quizessem seguir exercendo seu ministerio (+Meyer I,356). 

Em Chiapas uma Lei de Prevenção Social «contra loucos, degenerados, viciados em tóxicos, ébrios e vagabundos» dispõe: «Poderão ser considerados de má vida e submetidos a medidas de segurança, tais como reclusão em sanatórios, prisões, trabalhos forçados, etc., os mendigos desocupados, as prostitutas, os sacerdotes que exercerem seu ministério sem autorização legal, as pessoas que celebrarem atos religiosos em lugares públicos ou ensinarem dogmas religiosos às crianças, os homosexuais, os fabricantes, distribuídores e vendedores de artigos e imagens religiosas, assim como os responsáveis pela divulgação e comercialização de libros, folhetos ou qualquer impresso pelos quais se pretenda inculcar preconceitos religiosos» (+Rivero del Val 27). 

 PROIBIÇÃO DO CULTO RELIGIOSO (31/07/1926) 

 Os Bispos mexicanos, numa enérgica Carta pastoral (25-7-1926), protestaram unânimes, manifestando sua decisão de trabalhar para que "esse Decreto e os Artigos anti-religiosos da Constituição sejam reformados. E não cederemos até havê-lo conseguido". O presidente Calles respondeu friamente: "Nos limitamos a fazer cumprir as leis existentes, uma desde o tempo da Reforma há mais de meio século, e outra desde 1917... Naturalmente que meu Governo não pensa tampouco em suavizar as reformas e adições ao código penal". Era essa a tolerância dos liberais frente ao fanatismo dos católicos. Eles pediam aos católicos somente que obedecessem as leis. Poucos dias depois, em 31 de julho, após prévia consulta à Santa Sé, o Episcopado ordenou a suspensão do culto público em toda República. 


Imediatamente, uma dezena de Bispos, entre eles o Arcebispo da Cidade do México, são retirados bruscamente de suas Sedes Episcopais e sem julgamento prévio, são expulsos do país. É de se supor que os callistas receberam a notícia da suspensão dos cultos religiosos com frieza, inclusive com certa satisfação. Só não esperavam, como tampouco esperava a maioria dos Bispos, a reação do povo cristão ao se encontrar privado da Eucaristía e dos sacramentos, ao ver os altares sem as toalhas e os sacrários vazios, com a portinhola aberta... Cecilio Valtierra O cristero Cecilio Valtierra conta aquela experiência cm a eloquência ingênua do povo: "Fecharam o templo, o sacrário ficou deserto, ficou vazio, Deus já não está mais alí, foi hospedar-se com quem gostaria de lhe dar abrigo, já temendo ser prejudicado pelo governo; já não se ouve o badalar dos sinos que chamam o pecador à oração. 

Só nos restava um consolo: que a porta da Igreja estava aberta e os fiéis pela tarde iam rezar o Rosário e chorar seus pecados. O povo estava de luto, acabou-se a alegria, já não havia bem estar nem tranquilidade, sentia-se o coração oprimido e para completar tudo isso, o governo proibiu reuniões nas ruas: até o comum, ou seja, uma pessoa ficar em pé diante de outra, era considerado um delito grave" (Meyer I,96). 

 CONTINUA...

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A GUERRA DOS CRISTEROS - PARTE 2 - CONTINUAM AS PERSEGUIÇÕES À IGREJA

CRISTIADA - parte 2 - Continuam as perseguições à Igreja  

Fonte: ECWiki 
Tradução: Morro por Cristo 


Os últimos anos do Porfiriato (período do governo de Porfírio Díaz) e os anos seguintes, em meio à contínuas ingerências dos Estados Unidos, registram inumeráveis conspirações e sublevações, movimentos indígenas de reivindicação agrária e guerras marcadas por crueldades atrozes. A revolução liberal, que tão duramente perseguia os católicos, ia também devorando, um atrás do outro ao seus próprios filhos: é o horror do «processo histórico do liberalismo capitalista, que durante o século XIX e a metade do século XX, conseguiu apoderar-se das consciências de nossos povos e não apenas de suas riquezas» (Vasconcelos, Hª de México 10). Neste período surgem nomes como os do presidente Madero (+1913, assassinado), Emiliano Zapata (+1919, assassinado), presidente Carranza (+1920, assassinado), Pancho Villa (+1923, assassinado), ex presidente Alvaro de Obregón (+1928, assassinado)... A revolução do general Venustiano Carranza, que o levou à presidência (1916-20), ficou caracterizada pela dureza de sua perseguição à Igreja. Em seu caminho rumo ao poder, suas tropas multiplicavam os incêndios de templos, roubos e violações, atropelamentos de sacerdotes e religiosas. Ainda hoje no México carrancear significa roubar, e um atropelador é um carrancista. Venustiano Carranza Já no poder, quando os chefes militares eram definidos como governadores dos Estados libertados, ditavam contra a Igreja leis tirânicas
e absurdas: que não houvesse Missa em outros dias que não os domingos e ainda assim com determinadas condições; que não se celebrasse Missas de difuntos; que não se conservasse a água para os batismos nas pias batismais, mas que se batizasse com água corrente da torneira; que não se administrasse o sacramento da penitência a qualquer pessoa mas somente aos moribundos, e mesmo assim «em voz alta e diante de um funcionário do Governo» (López Beltrán 35). A orientação anti-cristã do Estado tornou-se finalmente solidificada com a Constituição de 1917, realizada em Querétaro por um Congresso constituinte formado únicamente por representantes carrancistas. Com efeito, naquela medonha Constituição o Estado liberal moderno, agravando as perseguições já iniciadas com Juárez nas Leis de Reforma, estabelecia a educação laica obrigatória (art.3), proibia os votos e o estabelecimento de órdens religiosas (5), assim como todo ato de culto fora dos templos ou das casas particulares (24). E não somente perpetuava o confiscamento dos bens da Igreja, como também proibia a existência de colégios de inspiração religiosa, conventos, seminários, palácios episcopais e casas paroquiais (27). Todas estas e outras tantas barbaridades semelhantes se impuseram no México sem que nenhum liberal ortodoxo do Ocidente sequer pestaneja-se. Álvaro Obregón O governo do general Obregón (1920-24), novo presidente, levou adiante o impulso perseguidor da Constituição mexicana: foi colocada uma bomba diante do arcebispado do México; alçaram bandeiras da revolução bolchevique - o que se tinha de mais progressista naqueles anos - sobre as catedrais da cidade do México e Morélia; um empregado da secretaria do Presidente detonou uma bomba ao pé do altar da Virgem de Guadalupe, cuja imagem ficou ilesa; foi expulso Mons. Philippi, Delegado Apostólico, por ter abençoado a primeira pedra colocada no Morro do Cubilete para o monumento a Cristo Rey... CONTINUA...

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A GUERRA DOS CRISTEROS - PARTE 1 - ORIGENS DA GUERRA

CRISTIADA - parte 1 - Origens da Guerra Cristera

Quando falamos em heróis da Fé, mártires ou martírio, automaticamente pensamos nas perseguições perpetradas por imperadores romanos ou imaginamos algum episódio que tenha ocorrido muitos e muitos séculos atrás. No entanto, em tempos recentes diversas perseguições à nossa Fé Católica aconteceram e continuam a acontecer e, dentre elas, uma merece especial destaque: a Guerra Cristera, também conhecida como CRISTIADA. Este importante episódio de nossa história, embora recente, infelizmente é desconhecido por grande parte da geração atual.
 
Este blog, através desta iniciativa, tentará contribuir para sua divulgação principalmente entre os falantes de português onde há grande escassez de informações a respeito. A seguir, iniciaremos uma série de postagens sobre a Guerra Cristera. Esperamos com isso colaborar para o fortalecimento da fé daqueles que conhecerem um pouco mais deste período que produziu tantos santos, modelos de fidelidade à Cristo, principalmente na época em que vivemos onde os direitos de Deus são cada vez mais atacados e vilipendiados. ¡VIVA CRISTO REY!


AS PERSEGUIÇÕES RELIGIOSAS NO MÉXICO DO SÉCULO XIX


Fonte:ECWiki                                 Tradução: Morro por Cristo

É conveniente que iniciemos nossa crônica pelo começo: a perseguição liberal que ocasionou a guerra cristera - Cristiada - no século XX não era senão a continuação da que se iniciou, já em larga escala no século XIX. Em 1810, com o grito do Padre Miguel Hidalgo: «Viva Fernando VII e morte ao mal governo!», inicia-se o processo que culminaria com a independência do México. Em 1821 o Plano de Iguala define a independência completa do México como monarquia constitucional que, ao ser oferecida sem sucesso a Fernando VII, acaba ficando à designação das Cortes mexicanas. Após o breve governo do imperador Agustín de Itúrbide (1821-24), rejeitado pela maçonaria e fusilado em Padilla, é proclamada a República (1824), que caminha vacilante até metade do século e que perde para os Estados Unidos a metade do território mexicano (1848).
Benito Juárez
Pouco depois da independência, já en 1855, desencadeou-se a revolução liberal com toda sua virulência anti-cristã. Foi então quando sobiu ao poder Benito Juárez (1855-72), índio zapoteca de Oaxaca, que aos 11 anos, auxiliado pelo leigo carmelita Salanueva, aprendeu o idioma espanhol, a ler e escrever, o que lhe permitiu ingressar no Seminário. Posteriormente, já como advogado e político, impõe, obrigado pela logia* norte-americana de Nova Orleans, a Constituição de 1857, de orientação liberal,  e as Leis de Reforma de 1859, ambas abertamente hostís à Igreja.
Por meio delas, contra todo direito natural, se estabelecia a nacionalização dos bens eclesiásticos, a supressão das órdens religiosas, a secularização de cemitérios, hospitais e centros beneficientes, etc. Seu governo ainda apoiou uma "igreja mexicana" numa tentativa precária de criar, em torno de um pobre sacerdote, uma igreja cismática.
Todas estas arbitrariedades provocaram um levantamento popular católico, semelhante, como assinala Jean Dumont, ao que haveria de se produzir no nosso século. Com efeito, «a Cristiada [1926-1931] teve um precedente bastante parecido nos anos 1858-1861. A catolicidade mexicana de então também manteve uma luta de três anos contra os Sem-Deus da época, laicistas da Reforma, também jacobinos, que haviam imposto a liberdade para todos os cultos, exceto o culto católico, submetido ao controle restritivo do Estado, com os bens da Igreja postos à venda, a proibição dos votos religiosos, a supressão da Compania de Jesus e portanto, de seus colégios, o juramento de todos os funcionários do Estado a favor dessas medidas, além da deportação e a prisão dos bispos e sacerdotes que protestassem. Pio IX condenou estas medidas, assim como Pio XI expressou sua admiração pelos cristeros».
Naquela guerra civil, na qual houve «deportação e condenação a morte de sacerdotes, deportação e encarceramento de bispos e de outros religiosos, repressão sangrenta das manifestações de protesto, particularmente numerosas nos estados de Jalisco, Michoacán, Puebla, Tlaxcala» (Hora de Deus no Novo Mundo 246), o governo liberal prevaleceu graças à ajuda dos Estados Unidos.
A Reforma liberal de Juárez não se caracterizou somente por seu sectarismo anti-religioso, mas também porque junto à desamortização dos bens da Igreja, eliminou as hortas comunitárias dos indígenas. Estas medidas não evitaram ao Estado sofrer um grave colapso financeiro, porém enriqueceram a classe privilegiada, aumentando o predomínio do latifúndio em larga escala. Com tudo isso, segundo o historiador mexicano Vasconcelos, também filósofo e político, «Juárez e sua Reforma estão condenados por nossa historia», tendo ele passado, como outros, «à categoria de agentes do Imperialismo anglo-saxão» (Breve hª 11).
Sobre este último bastaria recordar as incríveis ofertas, por vezes vergonhosas, do governo de Juárez aos Estados Unidos nos tratados Mac Lane-Ocampo e Corwin-Doblado ou nos convênios com os norte-americanos administrados pelo agente juarista José María Carvajal...
O período de Juárez viu-se interrompido por um breve período em que, por imposição de Napoleão III, ocupou o poder Maximiliano de Austria (1864-67), fusilado em Querétaro pouco tempo depois. Também nestes anos a Igreja ficou sujeita a leis vexatórias e os maçons «ofereceram ao Imperador a presidência do Supremo Conselho das logias, que ele recusou, aceitando porém o título de protetor da Ordem, além de nomear a dois de seus indivíduos como representantes, ao que imediatamente receberam o grau 33» (Acevedo, Hª de México 292).
Juárez foi sucedido no poder por Sebastián Lerdo de Tejada (1872-76). Este, que havia estudado no Seminário de Puebla, intensificou a perseguição religiosa, chegando a expulsar até «as Irmãs da Caridade - a quem até mesmo Juárez havia respeitado-, não obstante que das 410 que havia, 355 eram mexicanas, e que atendiam a cerca de 15 mil pessoas em seus hospitais, asilos e escolas. Por outro lado, favoreceu oficialmente a difusão do protestantismo, com apoio norte-americano. No ano de 1873 foi proibido que houvesse fora dos templos qualquer manifestação ou ato religioso» (Alvear Acevedo 310). Tudo isso provocou a guerra chamada de "los Religioneros" (1873-1876), um levantamento armado católico, precedente também ao dos cristeros (Meyer II,31-43).
O longo período de Juárez no poder ocasionou entre os mesmos liberais uma oposição cada vez mais forte. O general Porfirio Díaz - que era, como Juárez, de Oaxaca e antigo seminarista - propugnou como lei suprema a não-reeleição do Presidente da República (Plano de la Noria 1871; Plano de Tuxtepec 1876), desencadeou-se uma revolução que o levou ao governo do México mantendo-o durante quase 30 anos: foi reeleito oito vezes, numa sequência de fraudes e irregularidades nas eleições, entre 1877 e 1910.
Neste longo período exerceu uma ditadura de ordem e progresso, visivelmente favorável para os investidores extrangeiros - petróleo, redes ferroviárias -, principalmente norte-mericanos, e para as camadas sociais mais privilegiadas. Também em seu governo aumentou o latifundismo, e se mantiveram injustiças sociais muito graves (+Kenneth Turner, México bárbaro). Apesar de tudo, o liberalismo do Porfiriato foi mais tolerante com a Igreja. Ainda que tenha deixado vigentes as leis persecutórias da Reforma, normalmente não as aplicava; mas manteve em seu governo, especialmente no ensino fundamental e universitário, o espírito laicista anti-religioso.

CONTINUA...
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